5 de outubro de 2009
Macaco do Congo
A dor ensinada
A maior lição aprendida com Sega não fora, como Marin pensou, a de que o amor passa rápido, como brisa atlântica
Não. Mas o contrário.
Nisso, e praticamente apenas nisso, Bado se mostrou mais sábio do que a sacerdotisa do Hindukush.
O macaco logo percebeu o que havia de oculto naquilo tudo, nas noites incríveis passadas em uma caverna no norte do mundo.
Por detrás do significado óbvio -- a inconstância de um sentimento, capaz de desaparecer aqui e de ressurgir ali -- estava uma camada mais verdadeira de interpretação.
O amor outrora depositado em Shido não fora extinto.
Tampouco brotara em Sega como semente espontânea, não fecundada, sémen de masturbação
Bado agora sabia organicamente que o amor jamais passa, porque ele é tudo o que há.
É nele que as outras coisas passam.
E toda a paixão que havia tido Shido por alvo agora mirava em Sega, sem prejuízo algum.
O mesmo sentimento, porém reconstruído.
Agora, em vez de o babuíno escrever cartas de amor a Shido, ou a Sega, ou a ambos -- agora Bado riscava no pergaminho mensagens a si mesmo.
Aos poucos, apaixonou-se por sua imagem refletida em um ribeirão dentro da floresta fechada.
Seu coração de macaco pulsando sempre alucinado embaixo da camada de pelo sujo.
25 de setembro de 2009
Sangre
Nevertheless, this was brand news to Shido, for whom it had untill now the taste of wine
A cabernet sauvignon made from the grapes of hell -- sweet as vengeance, hatred and envy
Warm as murder
Dry as treason and cozy as unrestness
With the departure of Bado things suddenly returned to what they were supposed to be
Distance from love had put an end to an ancient uncast spell
Now Shido was once more a monkey -- not the leader of some blood thirsthy soldiers, but and old and febble baboon full of scars and regrets
Now the sun was just a hot spot on the sky, in the place of some misterious signal of supremacy
With a defeated smile, the lieutenant walked away from those violent ilusions
18 de setembro de 2009
Doença da paixão
15 de setembro de 2009
Desencontros inesperados
Bado waited for three days in the seashore of Gaza, where he had settled with Sega that they would met -- a contract written in ink in dozens of scrolls
While he was waiting, he remembered himself of all the silent promises of the earlier months
Smiling before such sweet and luxurious thoughts he licked the sharpen teeth
There was a discovery right there that now was evident: it is possible to survive!
The blue sea caressed the beach with a steadiness strange to the beating pulse of the monkey
Sega unfolded his books between hatred tears
*
He found two sorcerers hidden on a coastal cave -- Marin's aprentices
1 de setembro de 2009
Encontros inesperados
20 de agosto de 2009
Estar listo es todo
El mandril, a su vez, la ve con ojos de sangre
La mano en el vidrio es un señal de una tentativa de comunicación
Pero no hay lenguaje en que humanos y macacos puedan hablarse con dignidad
La muerte, talvez
La muerse, sí, es un lenguaje posible -- quien mata esta decindo algo
Los ojos de sangre brillan, locos
La República de las Bananas
Pero con la ruptura de todo un proyecto maravilloso ya no habia razón para quedarse alli
Su obligación era partir.
Es decir, debia dejar Shido y llevar consigo lo que los unia: un amor casi salvaje
Por que ahora, ahora todo y cualquier sentimiento es un agujero
Un agujero en la piel, y la sangre fuje
Un agujero en el espejo, y las imágenes no se reflejam más
Un agujero en el vaso de vino, y el liquido rojo escurre sin retorno possible
No.
Resistir es un deber.
"Adiós, mis ojos violentos".
14 de agosto de 2009
Sumiço
Nenhum recado ou indício fora deixado para trás. Shido, outrora o dente mais afiado da boca de seu alfa... reduzido. Um canino sem gengiva de que despontar.
A chegada do tempestuoso general foi seguida pela de tantos outros cortesãos - agora apenas macacos imponentes. Marin veio montada em um camelo e pendurou espelhos por todos os aposentos. "Para que vejamos a nossa dor em seu reflexo invertido." Olaf, outrora príncipe, agora poeira, veio trazido por um riquixá e deitou-se na cama desarrumada de seu pai. Três gorilas muy sábios vieram a pé e cantaram elegias melancólicas.
O Babuíno Voluntarioso não veio de lugar algum. de repente, estava entre o séquito desolado, sibilando por entre os dentes apodrecidos. Não respondeu às súblicas de Shido de que apontasse um caminho entre tantos - para que seguissem e vencessem.
Bado não entrou no Palácio. Não suportaria a dor de ver esfacelado um sonho que um tia fora tão glorioso. Sentou-se em uma colina distante e esperou, observando o monumento no horizonte próximo. Shido logo juntou-se ao amigo - amante - nada.
- Então é essa a sensação de ser um beta sem um alfa?, o general perguntou, com uma agressividade carinhosa típica de seus lábios.
- Não. Está apenas começando, Bado respondeu, com lágrimas nos olhos.
Aniquilação
Para Bado, assistir à partida de Shido foi como ver ir embroa sua parte mais feroz. A ausência do amante - a súbita falta até mesmo de seus pêlos tingidos de sangue - era sua própria aniquilação. o Bado dos últimos anos, todas suas palavras e gestos, era o Bado dominado por seu alfa, um macaco que, sem Shido, cessava de existir.

20 de julho de 2009
3 de junho de 2009
Macaco purulento
Mas quis a história que o grande assassino não cumprisse seu objetivo. Mal tinha entrado nas sombras das primeiras árvores do Congo e logo caiu irremediavelmente enfermo. Os gorilas muy sábios, a quem recorreu imediatamente, diagnosticaram-lhe uma variante perigosa de herpes e pediram que voltasse com urgência ao Palácio Azul para tratar-se com os feiticeiros de Lvcien.
Foi lá que, meses depois, Bado o encontrou, deitado embaixo de uma figueira, enrolado em cobertas azuis. Seus olhos apontavam para o céu de maio, desconsolados, e não deram nenhum sinal de terem notado a presença do velho amigo.
O rosto de Shido estava tomado pela doença. Embaixo dos pêlos agora ralos, placas amarelas, recheadas de pus, secas, horríveis, davam o tom das feições do macaco. As feridas subiam dos lábios aos contornos das narinas, para reaparecerem nas dobras das pálpebras e nas bochechas pontiagudas. Shido suspirou.
Bado sentou-se ao seu lado com os olhos cheios de lágrimas. Um campeão agora prostrado, reduzido a um corpo agonizante. Que fácil era tomar-lhe toda a glória! Da antiga empáfia do amante, pouco via agora em Shido. Talvez os olhos, ainda úmidos e sagazes, conservassem um pouco do orgulho assassino. Mas...
Beijou-lhe a boca.
26 de março de 2009
As traições despercebidas
E assim seguiu, sem nunca desviar-se da trilha há tanto tempo tomada. Até que percebeu que não havia o tal instante decisivo, ou se havia o tinha perdido de vista. De repente, caminhava lado a lado de Shido em uma rua repleta de lixo empilhado, embaixo da garoa gelada que amenizava o calor da estufa daquela cidade que, de tão quente, já se parecia com as savanas deixadas para trás. Tinha aceito um convite inocente, um encontro entre dois amigos. Mas nunca tinham sido amigos, somente amantes em potencial, e a coisa toda ganhava ares de libertinagem a cada passo que davam.
Passaram duas horas juntos bebendo whisky sem gelo em copos de requeijão, deitados no sofá. Os pêlos dos braços se emaranhavam, mas as peles jamais se encostavam. Conversaram como namorados. Dali ganharam as ruas de novo e subiram os caminhos vicinais a pé, até chegarem à esquina em que se despediram com um beijo no rosto e um abraço transbordando cumplicidade.
À noite, sonharam um com o outro e, no dia seguinte, reencontraram-se por acaso enquanto tomavam café, sozinhos. Trocaram sorrisos de vigarista e deram explicações um ao outro de onde tinham estado durante a manhã e o que tinham feito, como se fosse de praxe justificarem-se mutuamente.
27 de agosto de 2008
Céu aberto
3 de julho de 2008
Closet
- Sr. e Sra. Fiorucci, eu presumo? – Catarina Hildegard perguntou, devagar.
- Exatamente – respondeu-lhe a fêmea de olhos cheios d’água, que Catarina e seu marido, Leon Hildegard, por dedução sabiam chamar-se Helena.
- A que devemos... – Leon começou a falar, mas não sabia como completar a frase.
- O que vocês estão fazendo deitados no meu closet? – perguntou Catarina, mais rápida que seu esposo.
- Nós já estamos de saída – disseram ao mesmo tempo o Sr. e a Sra. Fiorucci. Mas a voz de Marco não era tão forte quanto a de Helena, e alguma coisa escapou dele naquele instante, silenciosa. O casal Hildegard compreendeu imediatamente o que estava se passando.
Helena levantou-se e, depois, ajudou Marco a, por sua vez, levantar-se. Eram uma bela dupla, dois espécimes muito bonitos. Seus pêlos mantinham ainda o brilho da juventude – mas eles já não eram jovens há alguns anos. Estavam constrangidos. Sem dizer mais nada, saíram da suíte, passaram pelo corredor azul, atravessaram o hall de entrada e foram até a grande porta de madeira. Helena pousou a mão na maçaneta, virou-se para trás e encarou Catarina. Disse-lhe:
- Sabe, fomos muito felizes aqui. É uma pena, realmente uma pena, termos que irmos embora.
- Os corretores de imóveis nos disseram que tínhamos até o meio dia para nos despedirmos do apartamento – explicou o sempre polido Marco, olhando em seguida para seu relógio de pulso, em que ainda faltavam alguns minutos para o instante em que sua casa passaria a ser de outrem.
Depois que os Fiorucci pegaram o elevador, o casal Hildegard suspirou. Ambos conheciam muito bem os augúrios, e ambos já tinham compreendido a mensagem muitíssimo bem. Abraçaram-se na beirada da janela que tinha vista para o Hyde Park. Com os olhos fixos na mesma árvore, beijaram-se.
17 de junho de 2008
Sarajevo
De olhos fechados, o mandril sonhou com Sarajevo
Não que conhecesse aquela cidade onírica, apenas gostava do som da palavra
Na escuridão confusa do sonho, os olhos negros viram maravilhas feitas de pedra e dor
Torres pontiagudas, campanários, minaretes, zigurates -- coisas que nem eram
Os relógios apareciam pendurados de ponta-cabeça, nas paredes descoloridas
E ninguém se olhava nos olhos
As estradas de terra naqueles anos estavam enlameadas e vazias
Chovia como se fosse a última vez
As rodas do coche de Mme. Blavatski quase atolaram no caminho
Quase
Mas foi com pompa suficiente que a líder dos macacos metafísicos chegou à cidade
Seu vestido velho sujo de lama
Foi recebida pelo boticário local, que beijou-lhe as mãos efusivamente
Sóbria, falou à população local sobre coisas que, até então, eram conhecidas apenas em poucas cidades africanas
Os miseráveis choraram diante de tais pensamentos inéditos
Deixaram de temer os porvires de cataclismas -- passaram a desejá-los
Foi quando Mme. Blavatski, satisfeita, voltou para seu coche
Deixou a cidade-pináculo
E viajou imediatamente para dentro da consciência do mandril adormecido
Onde a barra da sua saia sujou-se não de lama, mas de conflitos
O macaco acordou de sobressalto.
21 de maio de 2008
Flores amarelas
'That is perfectly adequate', Frederic answered, dissipating all the tension that there was on the atmosphere. 'So it will be yellow flowers, after all'.
'Yellow flowers it will be, indeed', Rafiki ended the conversation, satisfied. The deal had been exactly what it should have been. Except from the fact that he himself hated yellow flowers.
But the sultan of Istambul got really happy when he first saw the marvelous and bright new garden on the next spring. He was the only one who did not know that choosing the right flowers meant a lot to those religious monkeys. And that having the monkey's suport was very relevant on that bloody land.
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"Eu prefiro as flores amarelas, se não for um problema para você", disse Rafiki, o mandril ancião, para Frederico "Stupor Mundi", cruzado da europa ocidental e rei da cidade sagrada de Jerusalém. Os dois franziram o cenho.
"É perfeitamente adequado", Frederico respondeu, dissipando toda a tensão que estava na atmosfera. "Então serão flores amarelas, no final das contas".
"Flores amarelas serão, realmente", Rafiki terminou a conversa, satisfeito. O acordo tinha sido exatamente o que deveria ter sido. A não ser pelo fato de que ele próprio odiava flores amarelas.
Mas o sultão de Istambul ficou realmente contente quando ele viu pela primeira vez o maravilhoso e novo em folha jardim, na primavera seguinte. Ele era o único que não sabia que escolher as flores certas significava muito àqueles macacos religiosos. E que ter o apoio dos macacos era bastante relevante naquela terra sangrenta.
11 de maio de 2008
Grunhido I
Há macacos que não enxergam a verdade na frente deles; não sabem que a verdade é uma pulga mordendo a pálpebra; uma mordida que se sente mas nunca se vê; esses macacos estão destinados a tantas perdas; um dia se arrependerão de todas as vezes em que tomaram por desimportante tantas coisas essenciais.
30 de abril de 2008
Fora da bolha
Quando acordou, já tinham chegado à savana. O motorista os deixou embaixo de um baobá de poucas folhas e começou a se afastar -- mas o macaquinho não o acompanhou com os olhos, porque estava, no momento, com a pele da pálpebra esticada ao seu máximo para garantir que nada, nem um fio da sobrancelha, ficasse entre sua íris e o enorme elefante a sua frente.
O gigante cinza olhou para eles como se pudesse enxergar o futuro de tal forma que já os visse mortos, somente pó.
De um lado para o outro, dezenas de gazelas corriam. Saltavam com tanta graciosidade que Julian comentou com sua mãe que pareciam anjos. Mas isso foi antes dos guepardos se aproximarem - então, a caçada deixou o pequeno aterrorizado.
A vegetação rasteira era tão laranja que parecia ser a pele dos guepardos, só que menos perigosa.
O pequeno percebeu que gostava muito mais da selva que da savana. A selva, é claro, não era nenhum oásis. Mas alguma coisa havia de diferente -- tinha de haver, porque ele sentia que sim, e ainda era jovem o suficiente para acreditar que era sensível somente às coisas verdadeiras. Havia alguma coisa de desesperada na savana, pensava. Talvez fosse aquela imensidão quente sendo o palco de tantas coisas ao mesmo tempo. Ou o sangue que escorria constantemente de todas as feridas abertas.
Gemeu diante de tantos pensamentos.
Sua mãe segurou-lhe a mãozinha com força e sussurou no seu ouvido: "meu filho, o truque para se caminhar na savana é um só: fingir não ter medo. Os gnus trotam alucinados e podem pisar em nós; os leões devoram o que bem entenderem; hienas destroçam a carniça deixada de lado; mandrils matam filhotes e o sol, o sol é o mais cruel, o sol queima a tudo como se fosse um castigo constante -- isso é a savana, e precisamos fingir que estamos acostumados a ela. Fingir, somente, porque, é claro, é impossível que alguém esteja acostumado a viver assim, diante de tanta esterilidade e violência".
O macaquinho entendeu de imediato a teoria da mãe, ou pensou ter entendido -- perspectivas que, na situação, equivaliam-se. Foram, juntos, até a árvore do macaco ancião. Lá, ouviram palavras que não teriam dificuldade para repetir quando voltassem à selva. Tinham pressa, agora.
27 de abril de 2008
Pernas
Do lado de fora da árvore-casa, estavam dois macacos vestindo farda de guardiões. Seguravam o cap nas mãos. "Sinto muito, mas Marin foi assassinada na última sexta-feira. Uma cimitarra enferrujada, ou uma alabarda, ainda não se sabe ao certo. Achamos que você deveria ser o primeiro a saber". Fechou a porta. Encostou-se em uma das paredes do hall, fechou os olhos e tentou recuperar o fôlego. Marin, morta. E àquela altura do campeonato, com tantas coisas já degringoladas! Parecia-lhe um golpe cruel demais às suas últimas esperanças.
Olhou para o quarto e viu, através da porta aberta, as pernas da amante. Odiou-os, os dois membros peludos esticados -- como se a culpa de a revolução estar sendo sistematicamente frustrada fosse das pernas, e não da experiência milenar de Lvcien e dos exércitos de Avec. Pensou em matar a amada. Depois, percebeu que era outra pessoa que deveria ser extinta - Shido. Ele, e somente ele.
A não ser que...
21 de abril de 2008
Macaco de Israel
"Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita. Apegue-se-me a língua ao paladar, se não me lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalém à minha maior alegria."O macaco tinha se esquecido da cidade sagrada, mas não conseguia olvidar aquele salmo. Olhava para as duas mãos peludas com uma sensação curiosa de medo, mas não de culpa. Havia abandonado a capital sagrada para engajar-se nas lutas de Paris, para enfiar-se nas trincheiras profanas da pólis da luz. "Meu filho, essa batalha nada tem a ver contigo, um macaco de Israel". "Querida mãe, a estrela de David brilha na Europa tão forte quanto brilha na Judéia; deixa-me ir, e prometo que volto". A macaca velha deixara -- as recentes conquistas da Guerra dos Seis dias tinham derretido o coração dela. E cá estava ele, nas margens do Sena afugentando pombos. Chegara tarde demais, os rebeldes já tinham sido reprimidos. Não encontrava em lugar algum os olhos brilhantes dos revoltosos. "Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém", murmurava com tom irônico, "que se resseque o meu coração, a minha alma e todo o mais, menos a minha mão, para que nela eu ainda possa usar meus anéis faustosos". Tinha se tornado um filósofo, de repente, embaixo das nuvens francesas, descansando na sombra de Notre Dame, a senhora dos cristãos. Mas sabia -- os melhores filósofos são os árabes. Seu melhor amigo, macaco companheiro de uma infância gostosa passada no Neguev, era hoje um dos sufistas mais notáveis de Teerã (seu pai tinha sido um leal servidor do império Otomano, porém, e detestava os mitos abássidas e os sussurros a respeito de Imanes Ocultos). O islamismo permitia algumas loucuras a que o cristianismo e o judaísmo já tinham se tornado imunes, percebia. Mas o racionalismo francês não era imune a nada, e tinha levado o império carolíngio àquela situação tenebrosa -- jovens trancafiados em casa enquanto os gorilas de De Gaulle marchavam livres nas ruas reurbanizadas. Não que na terra de David a coisa estivesse menos enegrecida. O gás lacrimogêneo dos judeus, na terra sagrada de Jerusalém, era a própria atmosfera, e nas pedras desgastadas do último muro (dádiva do Imperador Adriano!, que tinha poupado ao menos aquele pedaço de relíquia, maldito seja o romano) as lágrimas de gerações se misturavam há seculos. Um casal passou por ele carregando duas malas de mão -- explosivos? Seria possível que a resistência ainda estivesse articulada? Bobagem. O mundo já tinha voltado seus olhos para a crise da França, a luta, para os seculares, já tinha sido ganha. Era assim que se fazia, nos países modernos. Um macaco de Israel, aquela batalha nada tinha a ver consigo mesmo. Sua mãe não estava enganada. E a estrela de David não brilhava ali tão forte quanto na Judéia -- ela mal brilhava. Aquela Europa agressiva, que expulsara os judeus no século XV, aquele continente ingrato. "Se eu não me lembrar de ti, tu não te lembrarás de mim também", concluiu, sorrindo. Levantou-se, mergulhou no Sena e nadou contra a corrente até a nascente oculta do rio. Percorreu os lençóis freáticos misteriosos, conheceu a origem da água do mundo e, quando voltou à superfície, já estava no Mediterrâneo. Glória ao nome desconhecido! Embarcou, sem ser visto, em um barco pesqueiro no Adriático. Navegou clandestinamente até a Anatólia, onde parentes distantes o receberam e o encaminharam a Israel montado em um camelo, como um rei vitorioso. Chegou a tempo das celebrações em homenagem ao aniversário de um ano da guerra de expansão -- vitória de Israel. Já não se via árabe nenhum sorrindo nas ruas. Golã, Sinai, Jordânia. Quando entrou em casa, sua mãe o abraçou como já não esperasse vê-lo com vida. "Convertestes os francos?", perguntou-lhe? "Não, minha mãe, não converti ninguém. Mas descobri que sou apaixonado por Jerusalém e jamais me esqueci da cidade sagrada. Minhas mãos não se ressecarão, porque não há nenhuma alegria que eu prefira à ela", disse. Sorriram, os dois com lágrimas nos olhos. Rezaram 68 vezes pela glória de David e dos nomes desconhecidos de deus.
15 de abril de 2008
Outra felicidade
Quando optou pela fidelidade, o mandril percebeu um conhecimento que, mais tarde, enquadraria na categoria das coisas que não tinha aprendido com o ancião da tribo, mas com a experiência cotidiana -- a felicidade não precisava estar no amor nem na glória, nem nela mesma; era possível encontrá-la numa outra modalidade: a conjugal. Naquele dia, decidiu ser feliz para sempre.
11 de abril de 2008
Uma possibilidade
Quebrar o pacto era muito semelhante a obter vingança, se é que não eram duas coisas que se equivalhiam. E parecia-se muito com justiça. Ouvia a voz de um antigo amante dizendo, desesperado, suas últimas palavras de amor. "Ninguém vai lhe amar como amei". De fato.
Atravessaram a savana lado a lado, mas o pensamento deles não coincidia nos mesmos assuntos. Não havia carinho em comum para unir os dois embaixo daquele sol escaldante. Somente os mantia coesos uma antiga promessa de uma união inquebrável celebrada embaixo de uma antiga árvore africana. A promessa e o medo de quebrá-la.
Deram as mãos.
5 de abril de 2008
On the hands (2)
Now his hands had another meaning for him
Yesterday they were just two pieces of flesh and bones
But now they were the evidence of an unpredictable love
For out of a sudden another hand had been in touch with his hand
And another eyes had been in sight with his eyes
Which meant, or was supposed to mean, that the last year was now past
Future had saved for them many days of sunshine
And the decision was now between darkness and light
Even if the possibility of light would certainly lead to blindness
While darkness could maintain him in some sort of delightful sleepwalking
Deciding had now the taste of vinegar
Was like the vision of a burning sun coming towards the last planet on universe
3 de abril de 2008
Nas mãos
Bado sabia que, dentro dele, estava guardada uma energia deliciosamente passional. Não tinha vindo ao mundo para deixar de amar as coisas. Filtrava a percepção que tinha do mundo, fazendo com que tudo viesse a ele distorcido pela boa vontade dos apaixonados.
Não, ele não era como Shido. Não passava pela sua cabeça que a paixão deveria nascer premeditada e ser sempre tutelada pela razão. Não. Nunca admitira que o amor fosse um rio com foz conhecida - ao contrário, deveria correr para sempre, sem jamais encontrar a anulação de um mar o recebendo.
Shido, ele sim, acreditava que era possível viver sem estar apaixonado. Que depender de alguém era fraqueza. Tantas bobagens! Não, o amor era uma torrente louca impossível de ser evitada. Irresistível. E Bado se entregaria a ela sempre que viesse.
Para que controlar aquelas frivolidades, se eram magníficas por serem frívolas? O macaco não entendia. Não compreendia e nem fazia questão. Gostava da ignorância quase imbecil com que tratava os assuntos do amor -- porque entendia que aquele era um assunto não para ser pensado, mas sentido.
Nas suas mãos, viu o desenho de diversas constelações distantes dali. Tão distantes quanto a possibilidade de, naquele dia, naqueles tempos, talvez pelos dias restantes de sua vida... tão distantes quanto a possibilidade de aqueles pêlos ásperos mais uma vez alisarem outros -- ao se apaixonar irremediavelmente, naquele deserto ridículo, havia sido setenciado a jamais se libertar daquele amor que, por nunca se concretizar, prendia-o em uma vida sem carinho.
Não. Aquelas duas mãos jamais acariciariam outras mãos. Não tocariam de leve o rosto de mais nenhum macaco. Não abraçariam ninguém. Não fariam nada, a não ser servir-lhe de apoio na areia horrível das dunas amarelas do Egito.
Olhou para elas como se fossem o mapa do cemitério em que seria enterrado. Sorriu.
18 de março de 2008
14 de março de 2008
Labirinto
11 de março de 2008
Relicário
10 de março de 2008
Dois suspiros
2 de março de 2008
Paisagem Pintada com Macacos
De "Paisagem Pintada com Chá" (Milorad Pávitch):
Sabia-se que havia muito tempo ele se tornara um animal selvagem, em cuja sombra nem o vento soprava. Em algum lugar da África, avistara um daqueles macacos que podem ser vistos apenas uma única vez durante a vida e que, de vez em quando, passam para o outro mundo. Estendera a mão ao macaco, permitira que o animal o mordesse. Desde então, o beg pedia ao sacerdote que lesse a mordida do macaco estampada em sua carne
28 de fevereiro de 2008
Na corda bamba
- Eu tenho sido um bom macaco? Ou há alguma coisa que tenho feito em excesso ou em falta?, porque de forma alguma acredito que estejamos chegando a qualquer lugar.
Assim falou o orgulhoso Lvcien de faces quentes. O bem-aventurado Garrastazu respondeu-lhe com aladas palavras
- Que palavras escapam-lhe à barreira dos dentes, meu querido! O mercador árabe, quando um de seus camelos lhe cospe na cara, sente seu estômago revirar, tamanha a ingratição demonstrada; assim me sinto hoje, surpreso com o seu questionamento. Não chegamos ao ponto em que estamos à toa, e tampouco viemos a pé. Agora explique-me o motivo da sua pergunta, para que nunca se diga que o azulado Garrastazu trata mal aqueles que com ele se deitam em alvos lençóis para acordar apenas quando raiar a Aurora de róseos dedos.
O orgulhoso Lvcien de faces quentes colocou suas mãos peludas uma em cada face do bem-aventurado Garrastazu. Depois, disse-lhe:
- De fato não posso dizer ter sido mal recebido em seu solar. Mas, com alguns olhares, você parece querer me mostrar que não sou tão querido quando um dia fui. Cheguei a fazer-lhe mal?, responda-me, porque não posso mais suportar a dúvida que carrego em meu coração, como se fosse uma armadura de bronze pesada vestida em um velho que não a pode carregar.
Isso disse Lvcien, talhado no semblante tal qual os imortais. A Garrastazu, pareceu estar falando com Zeus pai ou Apolo frecheiro -- respondeu-lhe:
- Lvcien, seu pai lutou lado a lado com o meu nas violentas batalhas travadas em terras já esquecidas. Naquelas querelas, um laço de sangue uniu nossas duas famílias, laço este que não tenciono romper tão cedo. Não fale assim comigo, pois que seu coração me parece inflexível, quando ages assim. Faça o contrário: seja terno comigo, e devolverei a você a mesma ternura que me entregar.
Lvcien ouviu as aladas palavras de Garrastazu com dor no coração. Não duvidava do amor que os unia, mas tinha dificuldade em acreditar nele enquanto ainda não tivesse sido declarado. Deu a conversa por encerrado e disse que tinha vontade de libar aos deuses e oferecer-lhes hecatombes. Em seguida, banquetearam e, após terem expulso de si a vontade de beber e comer, foram dormir cada qual em sua alcova.
No dia seguinte, acordou antes que Aurora dos róseos dedos emergisse do Océano e iluminasse os homens. Vestiu suas belas sandálias, prendeu a capa roxa nos ombros e amarrou o gládio à cintura esguia. Pediu aos servos de Garrastazu que lhe dessem um cavalo, o mais rápido de todos, e nele partiu em direção ao norte.
26 de fevereiro de 2008
Escarlate
14 de fevereiro de 2008
Rapidinhas

Eu sou o macaco que caminha sozinho por todas as savanas. Ninguém me acompanha, sigo nu.

Eu sou o mui sábio legionário de Constantinopla -- com uma mão viro as páginas de um livro e, com a outra, desfiro golpes mortais com meu gládio de bronze.

Eu sou o coração partido da América, e a América inteira também -- abandonaram-me a minha própria sorte e morri diariamente por três séculos consecutivos.

Eu sou uma estrela no firmamento, brilhando para gerações futuras. Para mim, o tempo é apenas uma conjectura.

Eu sou o babuíno que chora com um olho e sorri com o outro. Ninguém me enxerga.

Eu sou o impulso desastrado que, de repente, derruba um castelo de cartas.

Eu sou as cartas que foram derrubadas -- pensei, um dia, ser um castelo.

Eu sou a espada fincada na montanha, e um rio escuro e lamacento escorre a partir de mim.

Já me apaixonei mais de uma vez. Morri em todas elas.

Eu sou nós dois deitados na areia do deserto, nós dois de mãos dadas e a ver estrelas.
Excalibur
Olaf nada esperava do parceiro, mas não entendia de onde é que poderia vir, para o outro, o amor. Pois, para ele, a fonte do sentimento nada tinha a ver com convivência ou um longo tempo de acknoledgment -- a origem do amor, para ele, só poderia ser oculta, um rio que surge de repente de uma ferida da terra. Portanto, o macaco não esboçou nenhuma reação ao ouvir de seu amado que não contasse com nada vindo dele, exceto carinho e boa vontade -- só se conheciam desde a última primavera. Não esboçou nenhuma reação, mas concordou. Enquanto assentia, apático, imaginava seu próprio corpo como sendo uma espada belíssima fincada no chão; um rasgo na terra; vento brotando de um abismo de areia.
Abandonou-se a um desespero salgado, uma vaga de mar.
11 de fevereiro de 2008
Pernas ocultas
Death is not
**
31 de janeiro de 2008
A névoa é o final feliz
“Está bem”, concordou, sem alternativas. Entregou ao príncipe a cravelha de madeira, seu único verdadeiro tesouro. O príncipe, por sua vez, a entregou ao babuíno, que gargalhou. “Agora diga”, Marco Antônio disse, dirigindo-se ao primata, “diga onde é que esta porcaria se encaixa”.
“Aqui”, o Babuíno Voluntarioso respondeu, pousando a mão na sua própria barriga e, antes que alguém pudesse lhe perguntar como assim?, ele abriu o ventre como se fosse um cofre e revelou as engrenagens rodando dentro dele, incríveis rodas dentadas movendo mecanismos minuciosos e delicados, como uma caixinha de música. “Aqui”. Inseriu a cravelha num buraco, próximo a dois fios transparentes esticados, e a girou um pouco, com cuidado. Fechou a portinhola. “Agora, a última valsa”, sorriu. “Eu já apareci a cada um de vocês, apareci um milhão vezes um milhão de vezes, e percorri todos os séculos agonizantes para finalmente lhes dizer que a existência chega a um fim”.
Mudança de planos
30 de janeiro de 2008
Se eu pudesse derreter seu coração
Esticou o braço e tirou um papel, um único pedaço de papel, das mãos do boticário. Nele, se haviam escrito algumas linhas de um poema, versos ouvidos em devaneio, sussurrados então por uma voz fraca e inconstante. O babuíno os leu, concentrado, e ouvi-lo foi como se transportar para um outro lugar qualquer.
(...)
O babuíno terminou a leitura, pigarreou e levantou-se. Andando pelo quarto, quadrúpede, inquieto, parecia ser apenas um animal. Antes de chegar na porta, olhou para trás e disse ao boticário extasiado e desarmado: “Você é o visionário, mas não é o predestinado: não há nada reservado para você".
24 de janeiro de 2008
Macacafegã
Encostada em um pé de romã, Marin descansa da longa viagem. Depois de alguns dias de caminhada, finalmente chegou ao Afeganistão. Apóia a cabeça pelada na mão hirsuta e sonha imagens horríveis -- no sonho, é ferida mortalmente por uma alabarda amaldiçoada.Acorda esbaforida. Levanta-se e olha ao redor. Vê somente ruínas empoeiradas.
Checa a barriga e vê que não está sangrando. Ainda está viva.
E faz a interpretação do sonho que julga a mais acertada, e a mais conveniente também: "o pesadelo é Shido, e a ferida é Bado. Preciso me apressar".
Dez minutos depois, está no topo do Hindukush conversando com as forças da natureza até então adormecidas.
20 de janeiro de 2008
Um sonho africano
The monkey is desperate
He jumps from branch to branch praying to some ancient deity to save him
He is getting the far as he can get from the hunter's lodge
The sound of his chaser's drums, he thinks, will never cease
As if the sound of the drums was the sound the hunter's heartbeat
The sound of that heart that would never stop beating
Maybe it would change, thou not interrupt, its pace
The huntsman is an imortal monster
The hunter has arrived in the savannah long ago and it does not seem that he is going away
His weapons are getting more dangerous each day
And as time passes by there are less and less baboons to serve as prey to him
The hunter is moving towards Africa's heart
Moving on
Staining the continent's map with the lines that demark his recently founded territories
Africa's heart is located on the center of the continent, within some woods
Maybe in Congo, Chade or Uganda
Defended by hairy gorillas that won't defend it, because they are too wise to resist
The hunter is a destructive monster that moves towards the black heart, he is a parasite, his heart will only stop beating when Africa's drums are silent
The monkey observes the hunter as he wakes up, kills and sleeps
The monkey sees, from the top of King's Pride, the tongues of fire licking the savannah
The monkey wants to be licked too
And someday he disappears, he goes to the Elephant's Cemetery - which has recently been oppened to each and every animal in need of refuge
Except for the huntsman
And there the monkey lives his last days
The other animals call him 'compañero' and they offer him revolucionary cocktails
He likes being there, but he lacks seeing the dirty teeth of the hunter devouring bloody flesh
He now thinks the reason of flesh is to be devoured
And he has this incredible idea, out of the blue
He starts by one of the fingers of one foot, then all of them
Then the foot itself, and the other one
And the two legs
And the fingers of the hand, the hands, the arms
The belly
Then he devours his own face, he devours his hunger
And rests an eternal dream that has no scalding sun neither poverty
17 de janeiro de 2008
Antínoo 01/02
Lvcien ouviu falar que, em terras ocidentais, nas florestas que já tiveram mil nomes e hoje se chamam Bolívia, havia surgido uma nova espécie de aranha - de uma noite para outra, os nativos tinham-na encontrado e juravam ser a primeira vez que a viam. Quem o avisara tinha sido Olaf, seu filho trotamundos. Disse dela numa carta datada de 130 d.C:"É maravilhsamente agressiva e imprevisível, lembra-me o Babuíno Voluntarioso; como ele, a caranguejeira que os povos da floresta me mostraram aparenta trazer em si alguma espécie de ternura bruta cuja forma não é exatamente terna, mas seu contrário".
Nada mais Olaf falou da recém-descoberta aranha, mas tudo o que foi omitido Lvcien deduziu sozinho, porque conhecia quase todas as leis do universo e, dessa forma, para ele todos os acontecimentos já eram mais ou menos previsíveis.
Decidiu ver a tal criatura pessoalmente.
Uma vez na Bolívia, não foi difícil encontrá-la. Um sacerdote que Olaf havia mencionado em sua carta recebeu Lvcien em sua pequena vila e ordenou aos escravos que trouxessem a ele uma caranguejeira-antínoo (não era esse o nome que eles lha davam, mas é o único que consta nos registros do babuíno).
Pediu para ficar com a aranha como presente e recordação daquela aldeia; depois, partiu para os Andes levando-a consigo em um pote de ouro com tampa de jaspe.
Certa noite, libertou-a do cativeiro, colocou-a no pescoço e deixou-se ser aferroado. A dor foi maravilhosa. Pouco a pouco, o veneno espalhou-se pelo sangue denso do macaco, e horas depois ele estava morto sob um céu de poucas estrelas.
Os deuses de todos os cantos do mundo disputaram o privilégio de julgar o espírito de Lvcien. No final da querela, venceram Amon-Rá e sua trupe - naquela época eram poderosos os sacerdotes dos desertos egípcios.
O Devorador de Sombras, que pela frente é crocodilo, pelo meio leão e, por trás, hipopótamo, recebeu-o em uma sala escura, cercado de outras divindades antropozoomórficas. Um cheiro de poeira e terra molhada passeava pelo ar, e as cores pareciam ter perdido o brilho, como se estivessem envelhecidas.
(continua...)
11 de janeiro de 2008
10 de janeiro de 2008
Sphynx
- E você, o que diz das minhas conquistas militares? Que pensa das campanhas no Oeste, contra os Macacos do Novo Mundo? Nunca dá sua opinião - o general perguntou ao amigo
- Eu não acho que eu precise dizer qualquer coisa, Shido - Bado respondeu, cauteloso, depois de beber um gole de água - A minha opinião tem pouco peso nas decisões de Avec, talvez nenhuma.
Shido torceu o nariz e pegou sua taça de cristal com a mão feroz. Aproximou o líquido vermelho dos lábios, aspirou as partículas de álcool que se desprendiam da bebida, e de repente seus olhos estavam cheios de lágrimas orgulhosas demais para caírem. Pousou o vinho na mesa com uma delicadeza que não lhe era característica.
- Você pode ser sincero, não há ninguém aqui além de nós dois. Pedi aos guardas que nos deixassem a sós, e não há ninguém guardando a entrada da tenda - Shido disse, calmo, e depois completou com um sorriso enigmático - Ninguém nos ouviria, se gritássemos.
Bado esperou alguns instantes antes de reagir. Limitou-se a suspirar para, então, dizer:
- O que eu digo das suas conquistas, das campanhas no Novo Mundo? Penso que são massacres desnecessários, selvagens, e que envergonhariam os nossos ancestrais. Não é à toa que os gorilas não nos apóiam em nada, desde que começamos a nos envolver em tantas guerras. Penso que nos reencontramos no topo de uma duna, no deserto, e meu melhor amigo havia se transformado em um general cruel, um dente afiado na boca de Lvcien. Estou decepcionado. Penso que você gosta do cheiro e do gosto do sangue, e que você acredita que nada de melhor poderia ter acontecido com você nesses anos que se passaram entre nós. Se não lhe amasse tanto, Shido, diria que preferiria que você estivesse morto.
Shido arregalou os olhos, não exatamente surpreso com a resposta, mas com a coragem do amigo. Bado havia conquistado ainda mais profundamente o seu respeito, com aquelas palavras amargas e com aquela última declaração, talvez exagerada. O general das tropas de Avec levantou-se, abriu os olhos e disse, com olhos cruéis e deliciosos no rosto:
- É uma pena que você tenha me decifrado tão rapidamente, Bado! Desse jeito, não sobrou tempo para eu lhe devorar.
Shido jogou a capa escarlate sobre os ombros e saiu da tenda, rumo ao pavilhão dos arqueiros. Havia pensado em uma nova estratégia de combate e tinha medo de esquecê-la durante o sono inquieto.
8 de janeiro de 2008
Lágrimas na areia
O comantante das tropas de Avec pensou que talvez fosse melhor desistir e deixar o tolo ali. Até mesmo o corte mais traiçoeiro da faca logo é cicatrizado, pensava, acreditando que os sentimentos pudessem ser comparados à carne.
Começou a recolher sua mão peluda. Bado o impediu, segurando-na. Gostava do calor do amigo. Sorriu, enxugou as lágrimas e levantou-se. Olhou para Shido. Pela primeira vez, percebeu que ambos tinham se tornado adultos - não eram mais os dois babuínos de antigamente, brigando na areia do deserto por causa de alguma disputa mal resolvida. Os olhos ficaram úmidos.
- Sabe, Bado - Shido disse, com uma voz cujo timbre se situava exatamente entre a voz do amigo e a do general - Não podemos ficar pensando nos mortos. A morte é como um animal selvagem: se você a olhar por muito tempo nos olhos, ela olhará de volta para você. E não queremos que ela pense em nós, queremos?
- Não, não queremos - Bado respondeu. Por um instante, pensou que, se a morte era como um animal selvagem, eles podiam caçá-la, abatê-la, devorá-la, anulá-la. Sorriu.
Shido ajudou o amigo a montar seu cavalo e os dois voltaram, juntos, para o palácio de Garrastazu. Não trocaram mais nenhuma palavra. Mas gostariam de ter dito muitas coisas um ao outro - coisas que nem sabiam como começar a dizer.
2 de janeiro de 2008
2008
"Já estamos em 2037?", o macaquinho perguntou, sem abrir os olhos.
"2008?", o filhote respondeu. Não sabia de que serviria aquele ano, quatro dígitos pares, quatro números cheios de curvas, meio redondos.
"Sim. Ontem estávamos em 2007, hoje não estamos mais", o velho disse, com lágrimas nos olhos, e depois completou "não é fantástica a engenharia do universo?".
O pequeno não respondeu. Ficou quietinho, com os olhos molhados, observando o céu através da janela aberta. A cortina azul tricotada pela bisavó se movia devagar, porque o vento soprava por ela, aquele vento abafado de monções.
"Mas ainda não estamos em 2037", gemeu. "Que pena!".
"E o que vai acontecer nessa data, meu filho?".
"Não posso contar".
"Por que não?".
"Porque dái não vai acontecer nada, e se não acontecer nada não vai adiantar mais esperar a passagem dos anos. 2009, 2010 e 2014 vão ser anos perdidos, e todos os outros também".
"Meu filho, acho que a queima de fogos não lhe fez bem", o pai disse, preocupado. Não entendia nada de visões e presságios, não trazia consigo o sangue dos profetas de Avec.
Lembrou-se então de sua falecida avó, a macaca Tiffany, e de como ela gostava de datas. Fazia a família inteira comemorar dias que, para todos os outros da savana, não significavam nada. Principalmente o 24 de abril, do qual ela dizia "foi o dia do Cavalo de Madeira, vai ser o dia do Grande Olho no Céu, vão ser muitas coisas, e outras coisas não vão ser".
Vovó Tiffany, que gostava tanto de celebrar a entrada de alguns anos, já tinha morrido há muito tempo, e o velho macaco de repente sentiu a sua falta. E viu no filho um pouco dela, talvez as palavras de augúrios se assemelhassem.
"Meu filho, levanta e come uma perna de gazela de café da manhã. Depois, vamos comprar um calendário bem bonito. Juntos, contaremos os dias um a um, até os anos se passarem. Eu lhe amo, e espero chegar com você até 2037".
O filhote arregalou os olhos, surpreso.
"Obrigado, pai". Depois, engoliu a saliva e, com pena nos olhos, disse: "mas você não estará lá".

24 de dezembro de 2007
The not-love calendar
The marvelous gorilla had never felt like that before
Laying down on that old and rusty bed,
Sharing the dirty blankets with his lover, the cruel-hearted baboon,
He then thought he almost knew what love looked like
It has been a month since I first saw you on the savanna’, he said
‘It has been a month and three days, and I already feel defeated’
He really meant that, and tears were almost releasing theirselves from those black and shiny eyes
‘We do not know each other for more than thirty four days, and you have been always so gentle and kind’
Not again that bullshit of love and mutual respect
He was oh so tired of pretending to be gentle and kind
He breathed deeply and said, as if it was some kind of joke:
‘This you say because you do not know me’
‘I have been that gentle and kind because we have not even completed fourty days of acknoledgement’
‘But when it comes to two months of relationship, I’ll become extremelly cold’
‘And at three months I’ll only talk with you when necessary’
‘Four months and I’ll start cheating on you, and my scarlet ass will be everyone’s on the savanna’
‘The day you celebrate five months of supposed love, I’ll just forget you, out of a sudden’
‘And, finally, six months after our first kiss, I’ll leave you destroyed and you’ll never hear from me anymore’
He really thought that those predictions were part of a joke
A not so funny joke
But even if he thought so, he could not avoid shaking to his bones
‘It’s not really a calendar, you see’, the baboon answered coldly as if he had forgotten what was like to have a heart beating inside his chest
‘It’s more like a prediction, or a prophecy’
‘For I know myself and you are not my first gorilla, and will not be the last one either’
‘Call me whatever you want to, but I call this sincereness: I won’t love you anymore after some months’
The gorilla got confused
He was not a clever monkey at all, never was
And those complicated thoughts seemed just some kind of strange philosophy
Some kind of awkward reflections he could not understand
And minutes later he had forgotten almost everything he had heard in the last few minutes
Except for the idea of a calendar – he loved that
That night, he dreamt of three hundreds and sixty five numbers floating in infinite space, like small pieces of chocolate cake
20 de dezembro de 2007
Love is actually offline

MANdril_15 says:
quando a mrs. dalloway resolve comprar flores, quando ela pensa que vai comprá-las ela mesma, que flores você acha que ela tem em mente?
bab00n_stairlight says:
sei lá!
MANdril_15 says:
quer dizer, ela devia estar imaginando alguma flor, aqui nesse trecho:
MANdril_15 says:
"mrs. dalloway said she's buy the flowers herself"...
bab00n_stairlight says:
não sei... eu não to com nenhuma flor em mente, por exemplo. No máximo, consigo imaginar a capa do livro, quando leio essa frase!
MANdril_15 says:
isso é porque você definitivamente não é um visionário, baboon
bab00n_stairlight says:
não sou mesmo! eu heim...
MANdril_15 says:
e se ela estiver pensando em camarões?
bab00n_stairlight says:
tipo o país?
MANdril_15 says:
não! tipo o artrópode... rs. imagine - ela fala de flores e pensamos em folhas caule pétalas, mas o que ela tem em mente é um crustáceo vermelho-brilhante, com exoesqueleto crocante, dez patas, quatro antenas e sei lá quantos olhinhos pretos sagazes. não é fantástico?
bab00n_stairlight says:
ahn, talvez? não sei. não consigo te acompanhar nessas bobagens, meu querido
MANdril_15 says:
eu sei. eu sou uma carruagem de fogo puxada por treze corcéis. você é um sopro de vento!
bab00n_stairlight says:
o que isso significa?
MANdril_15 says:
que você precisa de um barco a vela, e não de mim
bab00n_stairlight says:
ahn?
MANdril_15 is offline
bab00n_stairlight says:
amor? você está aí?
bab00n_stairlight says:
ainda vamos sair amanhã?
bab00n_stairlight says:
amor? saco. você desconectou?
bab00n_stairlight says:
eu te amo, vai. não some.
bab00n_stairlight says:
é que eu não gosto muito de camarão. sabe? amor?
bab00n_stairlight says:
merda.
bab00n_stairlight is offline
17 de novembro de 2007
Lembranças sicilianas
O Babuíno Voluntarioso aparecera, à noite, no seu palácio, e dissera: Garrastazu, tu sei il scimmio azurre, sei il mio meglio amico, sei il gran fattucchiero dello deserto, sei il principe degli sogni più felice, sei il sorriso doppo il fraticidio, sei la pericolosa fiducia, sei tutti questi e un pò più, e oggi io voglio dire a te che bisogno la tua aiuta: alcuno ha rapito il mio figlio favorito. Io voglio havere vendetta.
Garrastazu, princípe romano, não tinha ficado exatamente contente com a missão. Mas entendia a importância de terem consigo o infante de todas as proles. Fora ao sul e trouxera de volta o macaco, exatamente como havia pedido o Babuíno.
Mas, agora que estava de volta, não conseguia esquecer o sol laranja siciliano e o ar áspero que ventava lá. Como uma infecção, as lembranças invadiam seus pensamentos e, de repente, il vecchio Garrastazu não era mais o mesmo: estava apaixonado.













